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Violência

  • 6 de nov. de 2025
  • 6 min de leitura

Como se soubesse não haver mais tempo para mesquinharias ele finalmente aceitou todo o obscurantismo que cabia nele, que era dele — Aceita — portanto podia-se concluir que já não era mais aquele homem insípido que desde que saíra da adolescência estava sendo. As violentas crises culpas remorsos e mágoas não lhe atingiam mais como feridas abertas na própria carne. Antes ele se violentava para tornar físico todo tormento que o mundo apresentava a ele, sabe do que to falando? A autoflagelação não era nenhum tipo de terapia por mais que ele quisesse que assim fosse, afinal, as dores sempre continuaram ali, e nem tão profundas assim, um arranhão qualquer já era capaz de mostrar toda a dor que ele sentia por estar padecendo pela vida que fora incumbido de carregar como uma formiga que carrega uma folha muito mais pesada que ela mesma. Certamente ele em nenhum momento havia solicitado ser trazido pra esse mundo — nunca pediu, é verdade, e se pediu não lembra, mas acho que nunca pediu! — mas também lhe faltava a coragem pra determinar o fim do sofrimento e também viver.

Na última crise que ele degringolou ao ponto de espreitar a morte e o fim pelo buraco da fechadura da sua alma, parece ter percebido então, e só então que sim, realmente havia um fim, e o fim era até próximo demais e muito irremediável demais pra ele que estava tão obstinado em partir, parecia derradeiro, absoluto como o próprio início, nem um pouco quisto. Para ele a diferença entre a vida e a morte era que a vida foi um fenômeno que lhe ocorreu sem qualquer escolha ou interferência da sua própria vontade, a morte por outro lado havia de ser milimetricamente planejada para que qualquer tentativa de salvamento fosse inútil. Para ele a morte era uma retomada de gerência sobre a própria existência. Ele, ele já não era mais ele, não só por pensar esse tipo de coisa mas porque ele verdadeiramente já havia se perdido em si, nada mais restara daquele garoto que defendia os micos dos moleques da rua que caçavam os coitados com pedradas ou bambus só pra se divertirem. O corpo dele que ainda andava, e comia, e bebia, e se drogava, e tava rotineiramente espreitando os extremos da vida, mas não era mais ele, até se parecia com ele mas não poderia ser ele, ele não tinha mais vontade de nada — antes tinha vontade de descobrir o mundo, bobo, né? — não queria mais nada — antes queria amar e ser amado, piegas — era um vazio tão expressivo na falta de expressividade estampada na cara dele, era nítido no rosto que aquele corpo tava vazio de gente, só o que tinha era uma dor estranha nas entranhas, não uma dor física, era uma dor estranha e nas entranhas, mesmo investigando a fundo não conseguiram delimitar causa para aquela dor ou sentimento. E a mãe dele insistiu em investigar, levou no cardiologista, neurologista, psiquiatra, homeopata, tomou até pílula de passiflora pra ver se conseguia dormir bem, uma noite pelo menos, a mãe achava que podia ser falta de sono nessa época, só nessa época.

Não, ele não conseguia, nem sei se queira, mas as noites também eram estranhas, tão estranhas como a dor, nas noites ele ficava no celular procurando o que fazer quando todo mundo já tava dormindo, ou então sentado na frente do sofá com a televisão ligada mas sem prestar atenção. Uma rolada no feed das redes sociais, alguns vídeos engraçados, uma vista rapidinha para a tv pois era a voz da dubladora da Jennifer Aniston que ele reconhecera, volta pro celular e alguns vídeos de bichos filhotes indefesos como ele próprio estava ou era, as noites eram uma coisa de passar tempo pra ver se pelo menos se acostumava com aquilo, com aquela dor estranha nas entranhas.

A dor não passou, e o tempo demorou pra passar, mas foi passando, ao certo não se sabe o dia exato que a dor estranha apareceu, talvez ele tenha até nascido com ela mas percebido depois, quando precisou lidar com a morte da única pessoa que ele tinha certeza que havia amado até então, mas depois amou mais outro, já com dor, e também namorou com outros, mas sem amar e também com dor, e também transou com outros, com mais dor ainda. Pelo menos 5 anos foi o tempo que o tempo passou desde ele se perceber com dor, o tempo passou bem lentamente, um-dia-após-o-outro como os amigos e familiares e namorados insistiam em recomendar, sim, qualquer coisa de banal como um-dia-após-o-outro era a recomendação, quase sempre entonada com ar de sabedoria por aqueles que eram mais velhos que ele, e com algum medo, acanho de receber uma resposta estúpida pelos que eram mais novos que ele, ou de desconhecidos e desafortunados que achavam saber do que aquilo tudo se tratava.

Não era luto o que ele tinha, o luto pode até ter desencadeado a dor, mas o luto em si não era a dor, a dor era umbilical, como se a corda que o segurasse aqui e o nutrisse de sonhos e esperanças e vontade e quereres e paixões tivesse se rompido, o abandonando à própria sorte e a mercê de emoções e sentimentos que sozinho ele com certeza não iria aguentar, eram muitos, muitos muitos diabos pendurados no ouvido dele dizendo coisas como — Vai, fica na cama só hoje, você merece! Ninguém vai sentir falta de você, então nem se preocupe em mandar mensagem! Para com isso, bobo, pra que você vai falar que gostou do trabalho dele? Nem tá tão bom assim, você sabe! Qual era aquela música que você gostava quando era adolescente e te fazia chorar tanto quando achava que aquele garoto panaca era o amor da sua vida? Escuta ela, depois cheira pó, não fuma baseado que senão você dorme, enche a cara de qualquer cachaça barata e depois arruma uma briga por qualquer coisa, não importa, você tem direito de tirar essa tristeza daqui de dentro com um soco, vai lá, VAI! — e algumas vezes ele até seguiu essas recomendações, outras vezes achou melhor desconversar e dar aos diabos outro tópico para falarem, isso quando ainda conseguia ter algum controle sobre os próprios pensamentos, não demorou muito pra ele ser totalmente castrado pelos diabos que moravam em seu ouvido ou subconsciente.

Acordar, beber café, fumar uma palha qualquer, enrolar, fumar outra palha, beber mais café, fumar mais, beber mais, enrolar mais, até chegar atrasado em qualquer coisa que fosse compromisso, desde as aulas na faculdade até as reuniões de trabalhos, algumas vezes atrasou até pra atrasar, nesses dias ele nem saia do apartamento, ficava lá, fumando, bebendo café, rolando o feed das redes sociais, e fumando mais e bebendo mais e rolando e se enrolando cada vez mais em seu fumo, seu café, sua enrolação. Foi assim até estar completamente perdido, desavisado que aquele seria seu fim, tão incapaz como quando nasceu, tão prematuro, tão frágil, tão a mercê da boa vontade alheia.. Ele chorava, e chorava muito, chorava sem saber pelo o que tava chorando, não conseguia parar de chorar, seu café já estava ficando rotineiramente salgado pelas lágrimas que caiam na xícara que algum ex-namorado abandonou em seu apartamento. Ele chorava e chorava muito, ficou umas duas semanas sem sair do apartamento só chorando e fumando e bebendo café.

E foi no meio de tanto choro, tanto sofrimento e tanta lágrima que a pandemia chegou na cidade, Petrópolis pra ser mais exato e mais fiel ao relato. E foi justo isso que o confortou, porque agora com a cólera ou covid-19, talvez não precisasse fazer nada para partir e então não ia precisar tomar coragem para nada que lhe desse medo, como morrer ou pior ainda, continuar a viver desse jeito, meio morto com café, palha, enrolo e choro.

Para seu azar, ou sorte, a pandemia estava arrebatando uma cambada de gente em Petrópolis, muita gente mesmo, mas não ele, ele incapaz de sair do próprio apê, não teria nem como ser infectado, além do que, se saísse pra isso, pra ser infectado, ele de certa forma estaria arbitrariamente tomando coragem, iniciativa ou qualquer coisa assim para definir sua morte, teria de ser milimetricamente planejado, de tal forma que o excesso de detalhes em todos seus planos suicidas o impedia de realizá-los, ele tinha ascendente em virgem e essa meticulosidade pra resolver as coisas da vida e da morte acabaram por ser o que o mantinha dentro do apartamento, limpo da cólera mas com o corpo totalmente sujo revelando o verdadeiro estado do que havia dentro dele, só um morto que se perdia mais e mais em palha, café e chorava demais, mais até do que fumava ou bebia café.



24 de Maio de 2020

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