
As Pílulas do Juízo Final
(2024 - )
"A redenção, o Juízo Final [...] é então uma apocatástase no sentido de que cada vítima do passado, cada tentativa de emancipação, por mais humilde e “pequena” que seja, será salva do esquecimento e “citada na ordem do dia”, ou seja, reconhecida, honrada, rememorada."
(Michael Löwy, Walter Benjamin: aviso de incêndio, p. 55.)
"A redenção, o Juízo Final [...] é então uma apocatástase no sentido de que cada vítima do passado, cada tentativa de emancipação, por mais humilde e “pequena” que seja, será salva do esquecimento e “citada na ordem do dia”, ou seja, reconhecida, honrada, rememorada."
(Michael Löwy, Walter Benjamin: aviso de incêndio, p. 55.)

Detalhe: O Juízo Final de Fra Angelico, 1431

O corpo contemporâneo é cada vez mais atravessado por dispositivos que se estendem, modulam e reorganizam sua existência psíquica e biológica. Essas extensões – próteses técnicas, digitais ou químicas – constituem o que podemos chamar de próteses moleculares, isto é, tecnologias de intervenção que operam em escala hormonal/biológica e afetiva, inscrevendo o poder diretamente nos tecidos e mentes dos sujeitos. O cidadão contemporâneo não apenas consome o psicofármaco: ele o incorpora como mediador da própria existência de si. A partir desse regime, o corpo deixa de ser fronteira entre o natural e o artificial e passa a funcionar como interface bioquímica de um sistema de controle difuso. A medicação cotidiana torna-se um modo de governo de si e dos outros, uma forma de docilizar molecular que internaliza o poder e o converte em sensação, humor e estabilidade. “O novo capitalismo farmacapornográfico funciona, na verdade, graças à gestão biomidiática da subjetividade, por meio de seu controle molecular e da produção de conexões virtuais audiovisuais.” (PRECIADO, 2023, p. 47) O corpo medicado é, portanto, um território híbrido: simultaneamente biológico e político, farmacológico e semiótico, onde a química se torna linguagem e o controle se disfarça de cuidado.
Desde junho de 2023 estou submetido voluntariamente à uma dieta balanceada de psicoativos: Frontal, risperidona, lamotrigina, Vicog, desvenlafaxina, mais recentemente bupropriona e quando necessário Ritalina e/ou Lexotan. Trata-se de uma dieta farmacológica cuidadosamente pensada e ajustada pelos psiquiatras que me atenderam desde o fatídico episódio em que ouvi vozes atrás da porta do meu quarto neste referido ano que abalou todas as certezas que tinha na vida. Estava convencido de que as vozes advinham de uma reunião das outras pessoas que moravam comigo naquele tempo com finalidade de deliberar sobre formas de me expulsarem da república, formas de se livrarem de mim. As falas soavam indistinguíveis, mesmo fazendo esforço com o ouvido contra a porta e com bastante concentração buscando entender o que estava sendo conversado. Abri a porta do quarto esperando surpreender meus colegas de casa e eu quem fui surpreendido, não havia ninguém na sala, eu estava sozinho, logo concluí que estava ouvindo vozes que não existiam além das arestas dos pensamentos de meu cérebro pantanoso.

Em As Pílulas, o ato de fotografar os psicofármacos quase que diariamente não é mera documentação, mas a própria metodologia processual que constitui o corpo da obra. O gesto de registrar, de modo reiterado, as pílulas, comprimidos e drágeas sobre a palma da mão esquerda estendida – como se recebesse ou oferecesse estas substâncias químicas –, transforma o rigor do tratamento psiquiátrico em prática de ordem estética e em dispositivo de formação do pensamento crítico. Cada fotografia é uma inscrição de tempo e matéria psíquica, um modo de dar forma ao intervalo existente entre a adesão voluntária e obediente ao tratamento com protocolo rígido sobre as formas de uso destas medicações e o desvio poético que é realizado através deste trabalho. O processo de criação, aqui, não se distingue da experiência vivida: é repetição que produz sentido próprio, é tempo que se converte em forma imagética. Nesse sentido, o procedimento fotográfico adotado para realização desta obra é simultaneamente uma operação que envolve cuidado e escrita, um modo singular de pensar o corpo. As Pílulas, portanto, pode ser definida pela duração e constância desta composição que foi iniciada em meados de 2024 mas não possui prazo determinado para sua finalização, sendo assim considerada como um trabalho de uma vida. Mais do que uma elaboração que produza um resultado fixo e/ou definitivo, a obra acaba revelando-se como uma prática de observação e resistência aos percalços inerentes à experiência de vida compartilhada de um sujeito neurodivergente – um método poético que une gestualidade, técnica e subjetividade.

O procedimento adotado na realização deste trabalho é relativamente simples, no momento de ingeri-las buscando seguir com as orientações da prescrição médica, as pílulas, comprimidos e drágeas são postos sobre a minha mão esquerda após retirá-las de suas embalagens de tarjas pretas e vermelhas, enquanto mantenho a mão estendida no momento que antecede a ingestão destas, e com o celular (iPhone 13) em punho na minha mão direita, com o aplicativo nativo da câmera aberto faço a configuração do modo retrato com a opção de luz brilhante mono ativada, somente então faço a captura da imagem, uma única vez, deixando aos cuidados do acaso a forma final que estas fotografias assumiram após processadas pelo sistema operacional do aparelho celular.
Geralmente, o dispositivo fotográfico do celular gera imagens sobre um fundo neutro, branco e límpido, nas quais as formas monocromáticas das pílulas se destacam pela variação das formas de apresentação destas medicações. O fundo das fotografias não é manipulado, mas produzido artificialmente: é resultado direto das condições de luminosidade e do automatismo do modo retrato do próprio dispositivo eletrônico utilizado para fotografar sistematicamente os objetos alvos do registro neste trabalho. Nunca há qualquer tratamento posterior nas imagens obtidas por esse procedimento, seguido rigorosamente desde que adquiri este modelo de telefone celular, no início de 2024. O celular, nesse contexto, não funciona apenas como ferramenta técnica ou mero dispositivo eletrônico, mas como prótese cognitiva e perceptiva, uma extensão da mão, do olhar e da memória – em sua utilização podemos considerá-lo como um órgão eletrônico de um corpo híbrido composto por carne e silício, um órgão estendido que participa ativamente da constituição deste corpo descrito e também de sua subjetividade. Donna Haraway afirma que “prefiro ser uma ciborgue a ser uma deusa” (HARAWAY, 2009, p.22), indicando a necessidade de pensar o corpo e a tecnologia não como instâncias opostas na contemporaneidade, mas como partes interdependentes de uma mesma ecologia ontológica.

O trabalho se iniciou como uma espécie de ritual cotidiano, uma prática diarística que transforma o tratamento psiquiátrico em procedimento estético. A câmera — instrumento técnico de registro — atua aqui como prótese do olhar e mediadora da experiência farmacológica. Cada fotografia é realizada imediatamente antes da ingestão, instaurando um intervalo liminar entre o corpo e a medicação, entre o ato clínico e o ato poético. O instante do registro é, portanto, um momento de suspensão: nem cura, nem doença, mas o intervalo em que o sujeito observa o próprio pharmakon.
No enquadramento com a mão como fundo, o corpo funciona simultaneamente como suporte e paisagem. A pele se torna território de inscrição do tempo e da experiência; sua superfície contém as marcas de uma repetição que é também variação. O gesto, reiterado ao longo dos dias, estabelece uma liturgia visual, um tipo de rito doméstico que opera no mesmo campo do que Byung-Chul Han (2022) denomina “ação simbólica” — aquilo que, pela repetição, estabiliza o tempo e confere sentido à vida. A constância do enquadramento funciona como um eixo de permanência em meio à instabilidade emocional e química que atravessa a experiência medicamentosa.

Ao longo do processo, o gesto foi se modificando: o fundo passou, em algumas fotografias, da palma da mão ao fundo branco que emoldura a mão que empunha o medicamento. Essa transformação, porém, não rompe a lógica inaugural — ela amplia o campo simbólico do corpo, deslocando o pharmakon para outros suportes do cotidiano. Se a mão representava o contato direto e o cuidado de si, os novos planos de fundo introduzem camadas de afastamento, o corpo se expande para além de sua anatomia e passa a habitar o espaço estético.
Assim, As Pílulas do Juízo Final configura-se como um arquivo em expansão, um dispositivo de autoinscrição e de resistência simbólica frente à medicalização da vida. O procedimento técnico — fotografar uma pílula sobre a palma da mão — é, ao mesmo tempo, ato de documentação e de exorcismo. A repetição diária do gesto converte o tratamento em linguagem, instaurando um espaço de reflexão sobre o controle, a dependência e a criação. Cada imagem é uma microdosis estética de memória e presença: uma pílula visual que se acumula, formando um inventário do invisível — o corpo em processo de se tratar e de se reinventar.

Cada fotografia é um pequeno ato de sobrevivência. Ao registrar o instante antes da ingestão, o corpo se reconhece em sua fragilidade e, ao mesmo tempo, afirma uma presença. O remédio, antes de dissolver-se, já é imagem; antes de agir no sangue, já age na memória. Nesse breve intervalo entre o visível e o invisível, o fármaco torna-se confissão e escudo, cicatriz luminosa sobre a pele aberta da rotina.
O gesto se repete — e é na repetição que algo se transforma. As pílulas, idênticas e diferentes, compõem um calendário de matéria e ausência. Não há cura nem promessa: há apenas o testemunho do corpo diante de sua própria química. As Pílulas do Juízo Final são, afinal, exercícios de delicadeza no abismo — pequenas oferendas àquilo que nos mantém de pé quando tudo parece prestes a se desfazer.
TARJA PRETA
Poéticas Medicamentosas
à deriva na arte contemporânea
Pesquisa de Mestrado em andamento
















































