
Próteses Moleculares
(2023 - )
“A ortopedia social está se transformando em micropróteses farmacopornográficas.”
Paul B. Preciado
Testo Junkie
Entre frascos, caixas, blisters e invólucros, Próteses Moleculares emerge como um inventário das pequenas tecnologias do aparente cuidado. São restos do cotidiano medicamentoso — embalagens, recipientes plásticos, comprimidos ausentes — recolhidos e dispostos como vestígios de uma economia farmacológica. Cada objeto carrega o traço de uma relação entre corpo e substância, entre tratamento e dependência, entre promessa e esquecimento. A obra parte do gesto de arquivar o banal, mas desloca a função utilitária dos materiais para um campo poético, onde o que antes servia ao tratamento passa a operar como signo da própria precariedade. O que resta de cada remédio é o que sobra do corpo: cápsulas vazias, etiquetas rasgadas, poeira de alumínio. Ao acumular esses resíduos e dispô-los em espaço expositivo, o trabalho reconfigura a lógica do descarte e da assepsia, instaurando uma arqueologia doméstica do cuidado. As “próteses” aqui não são só extensões tecnológicas do corpo no sentido moderno, mas também extensões sensíveis de sua memória química — moléculas que permanecem, mesmo quando o corpo já seguiu outro ciclo. Entre o clínico e o simbólico, Próteses Moleculares se inscreve como uma tentativa de restituição da experiência em meio à anestesia contemporânea: uma coleção de pequenas ruínas farmacológicas que, ao serem reagrupadas, voltam a pulsar na interação com outras obras de arte.
Estudio Viga, 2025



Ativação: Performance 613 de Gabina, 2024
IX Seminário de Pesquisa em Artes, Cultura e Linguagens
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“Na sociedade farmacopornográfica, as tecnologias se tornam parte do corpo: diluem-se nele, tornando-se somatécnicas. Como resultado [...] assume a forma do corpo, é incorporada.”
Paul B. Preciado
Testo Junkie, 2023, p.74

Desde 2023, quando houve o diagnóstico de esquizofrenia paranoide (CID F20.0), faço uso de medicamentos psicoativos, e desde o princípio desta utilização venho guardando os lastros desse uso. As embalagens vazias, os blisters perfurados, as caixas rasgadas e as etiquetas desbotadas começaram a acumular-se como uma espécie de segunda pele — testemunhos silenciosos de um cotidiano medicamentoso que se repete, mas nunca se iguala. Esses restos, antes destinados ao esquecimento, tornaram-se para mim uma espécie de linguagem residual: próteses de uma experiência invisível, moléculas solidificadas de uma convivência entre corpo e química. Arquivar o que sobra é também registrar o que o remédio não alcança — aquilo que escapa ao controle, que transborda do tratamento e se deposita nas frestas da vida comum. Assim, o gesto de guardar passou a ser um modo de resistir à dissolução, de transformar o cuidado em matéria, de reinscrever na superfície das coisas o que a rotina tende a anestesiar. Cada embalagem, cada fragmento, tornou-se um pequeno relicário da relação entre o eu e o pharmakon — um corpo estendido em suas próteses, um inventário de sobrevivência, um museu portátil daquilo que a medicina descarta, mas que a arte reanima.

Estudio Viga, 2025. Fotografia de Alice Ruffo.
TARJA PRETA
Poéticas Medicamentosas
à deriva na arte contemporânea
Pesquisa de Mestrado em andamento
