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[CASULO]
2023

Por que também deixamos de lado nossas armas, a tempestuosidade e a violência, a fúria e o rosnar ameaçador? Por que eu me permiti lidar erroneamente só com pedidos razoáveis? É meu direito agir com violência.”

OVID.

Metamorophosen

[CASULO] foi realizado em 13 de outubro de 2023, no Estúdio Viga (Juiz de Fora – MG), diante de um pequeno grupo de espectadores. A cena, silenciosa e densa, evoca uma liturgia do efêmero: o corpo envolto pelo gesso torna-se escultura, mas também desaparece sob o peso da matéria. Como em Marina Abramović — para quem o corpo é simultaneamente suporte e oferenda —, Lazarevitch convoca a presença como risco, como disponibilidade radical. O corpo performático não representa: ele atravessa. Cada camada de gesso torna-se um testemunho da fricção entre o biológico e o simbólico, entre a vida e a estética, entre a carne e o conceito. As fotografias aqui apresentadas foram feitas por Alice Ruffo, a performance teve auxilio de João Aquino e participação de Fabris.

Pink Poppy Flowers

Eu e Fabris

Pink Poppy Flowers

Ritual de besuntamento de Fabris anterior à aplicação do gesso.

Rituais são ações simbólicas. Transmitem e representam todos os valores e ordenamentos que portam uma comunidade. [...] A percepção simbólica é constitutiva dos rituais.

BYUNG-CHUL HAN

O desaparecimento dos rituais, 2021, p.9 

Pink Poppy Flowers

Estar diante do público é sempre um gesto de risco. A presença do outro, silenciosa, julgadora, desloca o corpo para um território de tensão onde cada movimento se torna consciente demais, cada respiração é monitorada pelo olhar alheio. O corpo que se deixa envolver pelo gesso não performa apenas um ritual de endurecimento físico, mas também uma entrega simbólica à experiência de ser visto — portanto, vulnerável. O público torna-se parte da reação, catalisador da química entre obra, matéria, corpo e sentido.

Esse estranhamento não nasce do medo, mas da consciência de que o olhar é uma forma de contato. Há algo profundamente ambíguo em ser olhado enquanto se endurece, enquanto o corpo perde progressivamente a autonomia de mover-se e responder. O olhar coletivo transforma o gesto em acontecimento, mas também em prisão. O corpo em performance, suspenso entre exposição e clausura, não pertence mais a si mesmo — torna-se comum, compartilhado, contaminado pela presença dos outros.

Tomar um ansiolítico antes de performar — Lexotan (6mg) — revela essa dimensão do desconforto como parte do processo, não como falha. O medicamento, aqui, age como uma prótese emocional, uma camada invisível de gesso psíquico que antecede o material. Ele permite sustentar o olhar do outro, diluir o tremor interno, tornar possível o gesto. Assim, o pharmakon aparece como mediador entre a interioridade e a cena, entre o corpo e o público, entre o medo e o acontecimento.

Público presente

Pink Poppy Flowers

Ritual de encasulamento de Fabris

O endurecimento do corpo é, também, uma metáfora da petrificação afetiva que atravessa a contemporaneidade. Han observa que a coação de produtividade e a estética do desempenho corroem a possibilidade de permanência e interioridade: tudo se torna fugaz, consumível, sem espessura. O corpo, coberto por gesso, é entregue a um tempo material, químico e ritual, em que a transformação acontece de fora para dentro. A solidificação funciona como antídoto à liquidez: gesto que resiste à dissolução, gesto que afirma o corpo como território simbólico e não como superfície de exibição.

A performatividade nasce do confronto entre corpo, matéria e presença. Trata-se de um gesto que recusa a transparência do mundo contemporâneo e aposta na opacidade como forma de resistência. Ao permitir que o gesso o envolva até o limite da imobilidade, o corpo se torna rito e escultura, instaurando um espaço-tempo em que a ação é substituída pela suspensão. Em O desaparecimento dos rituais, Han escreve que os rituais transformam o estar-no-mundo em estar-em-casa e que, na ausência deles, a vida se desestrutura em fluxos efêmeros de informação (HAN, 2022).

O endurecimento provocado pelo gesso contrasta com a fluidez produtiva que marca o presente, criando uma brecha de silêncio no ruído da aceleração. O rito aqui não é repetição vazia, mas reinvenção simbólica do gesto, um modo de reinscrever o corpo na experiência de comunidade — ainda que essa comunidade seja precária, composta por poucos olhares suspensos no mesmo instante.

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[CASULO]

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